Vamos Falar Sobre Aborto?

Eu me lembro de em algum momento da minha vida ter sido contra o aborto. Felizmente, eu sou como diria Raul, uma "metamorfose ambulante" e aprendi a ver os fatos de forma lógica e prática. Eu não quero ter filhos, e tomo os devidos cuidados para isso. Eu conheço mulheres que engravidaram tomando as devidas precauções. Eu tenho amigos que foram criados somente pelas suas mães e não conheceram os seus pais. Eu tenho amigos que foram adotados por outras famílias. E olha só, a realidade desses meus amigos é linda, porque se tornaram pessoas de bem e que eu admiro muito, mas longe do nosso convívio, existem milhares de crianças sem lar, sem conhecer pai e mãe, crianças que se tornam adultos sem ter a chance de serem adotados para saber como é almoçar aos domingos com a família reunida em volta da mesa contando as mesmas velhas histórias de sempre que fazem todos rirem. Felizmente eu já entrei em favelas, eu já vi mães de 5, 6 crianças que obviamente não tem o mínimo de condições para criar um filho, financeiramente e estruturalmente. A culpa é de quem? Fácil colocar a culpa na mãe, porque afinal de contas foi ela quem "abriu as pernas", não é mesmo? Mas olha só, pessoas erram e acima de tudo, nenhum método contraceptivo é 100% eficaz. 

 Sobre Aborto


A descriminalização do aborto


A descriminalização do aborto é questão de saúde pública? Com certeza, de acordo com a Organização Mundial da Saúde cerca de 20 milhões de abortos são feitos anualmente de forma clandestina, resultando na morte de 70 mil mulheres. Sim, mas vai além disso, e falando em saúde pública, sabemos também que a nossa saúde pública é falida, e sabe-se lá o que esperar de um aborto em um hospital público. Quem tem um plano de saúde ou poderá pagar por um aborto em clínica particular legalizada está de bem com a vida, para quem não pode o buraco é beeeem mais embaixo. Primeiramente, o aborto tem que ser uma questão de educação e conscientização.

As mulheres, e inclusive aquelas que tem 5 ou 6 filhos precisam ter consciência dos riscos e consequências e acesso à informação, para evitarem a necessidade de tomar uma decisão drástica. Prevenir sempre é melhor do que remediar. Nenhuma mulher que já fez um aborto desejou fazê-lo. Ninguém fica feliz com isso, principalmente sabendo dos risco à saúde e à vida. Então para que as mulheres tenham o direito de decidirem o que fazer com seus corpos, é preciso estarem conscientes das consequências.

O aborto é sim uma questão de direito. Direito de não trazer ao mundo uma criança para sofrer as consequências dos erros de outras pessoas. Direito de a mulher escolher o que fazer com o seu próprio corpo e com a própria vida. Se ela vai abortar uma ou dez vezes, o risco é inteiramente dela, mas antes de colocar a responsabilidade em cima de uma pessoa (porque quando falamos em aborto, somente a mulher é crucificada, como se ela tivesse transado sozinha e ficado grávida dos próprios fluídos corporais. Sociedade, por favor né...) temos que ter estrutura para isso, tem que haver assistência para evitar que um aborto seja necessário. A mulher precisa desse direito, mas precisa também ter a consciência de não precisar usá-lo. Até o terceiro mês de gestação o feto ainda não teve o córtex cerebral formado, que é a parte responsável por desenvolver sentimentos e consciência, portanto, não caracteriza crime contra a vida. E isso não é ser cruel, é ser racional. Enquanto essa forma conservadora de pensar não mudar, as mulheres continuarão morrendo e seus filhos continuarão sendo condenados por erros que não cometeram. 

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